20.2.18

Clarice Lispector no retiro do Papa Francisco





Clarice Lispector é um dos autores que o padre e poeta Tolentino Mendonça vai levar para ser uma das referências do exercício espiritual do Papa Francisco, que terá lugar dia 23 de Fevereiro, na Casa “Divin Maestro” di Ariccia, nos arredores de Roma, como contou à jornalista Antonella Palermo, do Vatican News.
Deus, afirmou o padre Tolentino, não é sobretudo um enigma, é apenas algo de invisível. Em Jesus tornou-se nosso próximo, por isso nos exercícios espirituais o mais importante é estar inteiramente aberto a essa vizinhança.
Tolentino afirma ter-se inspirado na poesia de Emily Dickinson quando escrevia que “a sede ensina o caminho para a água”, mas também em Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Antoine de Saint-Exupéry e o escritor Tonino Guerra.

Relógio D’Água publica a obra de Gonçalo M. Tavares






A Relógio D’Água chegou a acordo com Gonçalo M. Tavares para nos próximos anos concentrar a publicação das suas obras na editora.
A partir de agora, os seus novos livros — à excepção de alguns para que já existam compromissos de publicação — sairão na Relógio D’Água, que procederá igualmente à reedição das suas obras à medida que forem ficando disponíveis.
Será mantida a organização por séries já existente (O Bairro, a Enciclopédia, etc.), procedendo-se por vezes à alteração do grafismo e ao agrupamento de livros saídos nas mesmas colecções.
Espera-se deste modo facilitar e alargar o contacto de Gonçalo M. Tavares com os seus leitores.
Gonçalo M. Tavares é autor de uma vasta obra traduzida em cerca de cinquenta países, sendo por isso um dos escritores mais traduzidos na história da literatura portuguesa.
Recebeu importantes prémios em Portugal e no estrangeiro. Em Portugal, obteve o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, o Prémio Literário José Saramago, o Fernando Namora e o Prémio Vergílio Ferreira.
Em França, Aprender a Rezar na Era da Técnica foi premiado com o Prix du Meilleur Livre Étranger em 2010. Recebeu ainda o Premio Internazionale Trieste Poesia em 2008, o Prémio Belgrado Poesia em 2009, o Grand Prix Littéraire du Web Cultura em 2010 e duas vezes o Prémio Oceanos no Brasil, tendo sido finalista por diversas vezes do Prix Médicis e do Prix Femina.
A sua linguagem em ruptura com as tradições líricas portuguesas e a subversão dos géneros literários fazem dele um dos mais inovadores escritores europeus da actualidade. 
Saramago vaticinou-lhe o Prémio Nobel. Vasco Graça Moura escreveu que Uma Viagem à Índia dará ainda que falar dentro de cem anos. Alberto Manguel considerou-o um dos grandes autores universais. Em entrevista recente, Vila-Matas comparou-o a Kafka e Lobo Antunes. O mesmo já fizera a The New Yorker, afirmando que, tal como em Kafka e Beckett, Gonçalo M. Tavares mostrava que a “lógica pode servir eficazmente tanto a loucura como a razão”.
O próximo livro a publicar será Dicionário sobre Literatura Bloom e, entre as reedições previstas para este ano, estão O Senhor Walser e a Floresta, O Senhor Brecht e o Sucesso, Livro da Dança, Animalescos, Atlas do Corpo e da Imaginação, e duas obras para o público infanto-juvenil, Os Dois Lados e Os Amigos.
Gonçalo M. Tavares junta-se assim no catálogo da Relógio D’Água (onde já tinha várias obras) a autores como José Cardoso Pires, Agustina Bessa-Luís e Hélia Correia.

Melhores cumprimentos,
Francisco Vale

Lisboa, 19 de Fevereiro de 2018

[fotografia de Teresa Sá]

19.2.18

A chegar às livrarias: Nesta Grande Época — Sátiras Escolhidas (selecção, tradução, prefácio e notas de António Sousa Ribeiro)




«A partir de 1902, ano em que publica o texto “Moral e criminalidade”, Kraus encontra o seu primeiro grande tema, a hipocrisia da moral dominante e as suas consequências, nomeadamente, para a opressão da mulher, vitimizada pelo aparelho judiciário com a conivência activa de uma imprensa sensacionalista. Nesta área sobre todas sensível numa sociedade de cariz vitoriano, reina a mais nefasta confusão entre o público e o privado: enquanto assuntos públicos são tratados como negócios entre particulares, a esfera privada, nomeadamente a esfera íntima da mulher, é invadida sem quaisquer escrúpulos. A crítica à moral sexual dominante e, em particular, ao uso de um enquadramento jurídico obsoleto e misógino como sustentáculo de uma sociedade hipócrita, que nega à mulher o direito à sexualidade, percorre toda a primeira década da revista, atingindo, pode dizer-se, um quase paroxismo num texto como “A muralha da China”, de 1910, incluído no presente volume.» [Do Prefácio de António Sousa Ribeiro]

16.2.18

Sobre Descrição Guerreira e Amorosa da Cidade de Lisboa, de Alexandre Andrade




Hugo Pinto Santos escreveu no «ípsilon» sobre «Descrição Guerreira e Amorosa da Cidade de Lisboa», de Alexandre Andrade:

«(…) este romance não vê baldados os seus esforços de equilíbrio de forças contrárias, nem se deixa invadir por brechas que comprometessem a sua estrutura, ou pudessem enfraquecê-lo sem conserto possível. Para a resistência dessa edificação não deixará, igualmente, de contribuir um factor que é comum a trabalhos prévios de Alexandre Andrade. O rigor da linguagem, como instrumento de precisão e investimento estilístico, a impecável urdidura dos segmentos, a montagem superior do todo. Sem ceder à tentação “preciosista” que poderia ter levado o estilo a suplantar o homem (parafraseando a máxima de Buffon), Descrição Guerreira conta com essa solidez de construção para que todos os elementos disruptivos — cavaleiros em demanda pelo Graal a dormirem em pensões lisboetas, a rainha Genevra (forma como se escrevia na Demanda do Santo Graal) em apuros pela cidade — sejam concorrentes, e não adversários, do conseguimento da ficção.» [16/2/2018]

De Alexandre Andrade a Relógio D’Água publicou também Benoni, O Leão de Belfort e Cinco Contos sobre Fracasso e Sucesso

A chegar às livrarias: Contos Escolhidos, de Franz Kafka (trad. de Carlos Leite)





Este livro reúne onze contos de Kafka.
Entre eles estão alguns dos mais notáveis, como «Textos do Tema “O Caçador Graco”», «Um Médico de Aldeia», «Preparativos para Um Casamento no Campo» e «Josefine, a Cantora ou O Povo dos Ratos».

«(…) O argumento e o ambiente são o essencial; não as evoluções da fábula nem a penetração psicológica. Daí a primazia dos seus contos sobre os seus romances; daí o direito a afirmar que esta antologia de contos nos dá integralmente a medida de tão singular escritor.» [Jorge Luis Borges]

15.2.18

O desejo de perdurar




Comecei por conhecer Natália Nunes como autora, tendo a Relógio D’Água editado três dos seus romances. 
Mais tarde, encontrei-me algumas vezes com ela em casa da filha, Cristina Carvalho.
Natália Nunes fez parte de uma geração de escritoras cuja obra, iniciada nos anos cinquenta do século xx, escapou às correntes do neo-realismo e do surrealismo. Umas transcenderam o seu tempo e mantêm-se actuais, como é o caso de Agustina Bessa-Luís. Outras conseguiram fazê-lo em muitas das suas obras, como sucedeu como Maria Judite de Carvalho, Irene Lisboa, Fernanda Botelho e a própria Natália Nunes.
Era uma intelectual que mantinha uma lucidez por vezes cortante. Quando a conversa era literária, entusiasmava-se, e o seu sorriso era uma cintilação de ironia.
Foi de uma grande coragem quando jovem e bela mulher de uma família tradicional beirã se dispôs a casar com um homem quinze anos mais velho, divorciado e pai de um filho. Era Rómulo de Carvalho e a sua história amorosa é um segredo que, para um estranho como eu, só pode ser pressentida nalguns versos de Gedeão ou frases dos romances de Natália Nunes.
Às vezes, encontrava-a passeando por caminhos de Quintas. Ia absorta e o Vale de Deus e as montanhas cobertas de pinheiros e urze branca pareciam apenas um cenário para as suas meditações. O vale tem início numa capela onde outrora o mar chegava e é atravessado por um ribeiro que vai desaguar na Praia de São Lourenço. No último Verão, o vale e a montanha arderam e são agora uma paisagem de castanho e cinza.
Há algumas semanas Cristina Carvalho ofereceu-me, com visível entusiasmo, um livro de Natália Nunes: Horas Vivas. «Lê», disse-me, «vais ficar espantado.» O livro permaneceu algumas semanas na minha secretária e lamento agora não o ter aberto há mais tempo. São memórias de infância dedicadas ao pai.
Começam assim:
«Um dia, quando vivíamos ainda na cidade, o pai chegou a casa mais cedo do que costumava. Vinha extremamente pálido e amparado por dois homens que o levaram para o quarto e o depuseram sobre a cama.»


Francisco Vale

Sobre a morte de Natália Nunes





Sobre a morte de Natália Nunes ( 1921 – 2018 ) portuguesa, escritora, tradutora, ensaísta, nome este que, para muitos e muitos, tem sido ouvido, recentemente, pela primeira vez.
Natália Nunes tem passado despercebida do grande público leitor. O seu primeiro livro publicado, em 1952, “Horas Vivas” memórias de infância é uma obra de arte literária. Seguiram-se muitos outros romances, novelas, contos. Traduziu, incansavelmente, toda a obra de Tolstoi, de Dostoievsky, de Elsa Triolet, de Mircea Elíade (História das Religiões), Violette Leduc, etc. Escreveu muitos ensaios e posso destacar “A Ressurreição das Florestas” um estudo sobre a obra de Carlos de Oliveira ou  “As Batalhas que Nós Perdemos” estudos sobre as obras de Augusto Abelaira, José Cardoso Pires e Raul Brandão ou “A metafísica de Húmus de Raul Brandão” para só mencionar alguns destes trabalhos ; colaborou em diversas revistas da especialidade e durante muitos anos como a Vértice ou a Seara Nova.
Enfim, uma vida inteira dedicada com paixão à arte literária. E quantos e quantos escreveram quilómetros de linhas que, num diminuto espaço temporal, deixam de ser lembrados? Que memória é esta, a que fica destas pessoas que, por interesse, por paixão, tanto escreveram? Que memórias nos deixaram? Que interesse tem tudo? Para que servirá tudo isto?
A memória é labiríntica, intercepta tempos e espaços e realidades psicológicas  e históricas completamente diferentes, misturando-as. Nunca se sabe onde nos pode levar e o que pode produzir, essa memória, entrelaçando o efémero e o permanente, o subtil e o concreto que são matéria prima e elementar da construção literária. Mas a lembrança, essa, por si só não aparece a ninguém, nem sequer como alucinação. A lembrança de alguém tem de ser orientada, apresentada, tem de percorrer todo um processo cognitivo. A educação é assim.   E só assim se inaugura ou se mantém uma obra valorosa. Como a história de todas as artes tem demonstrado.
A Relógio D’Água publicou, da sua produção ficcional, as seguintes obras:
“Vénus Turbulenta” ; “Assembleia de Mulheres” ; “As Velhas Senhoras e Outros Contos”
Natália Nunes nasceu a 18 de Novembro de 1921 e morreu a 13 de Fevereiro de 2018. 
Foi casada com Rómulo de Carvalho – professor, cientista, divulgador da ciência que usou o pseudónimo de António Gedeão na sua poesia.



Cristina Carvalho  (filha) 14 de Fevereiro 2018
[fotografia de Nanã Sousa Dias]

Sobre O Céu É dos Violentos, de Flannery O'Connor



Isabel Lucas e Mariana Oliveira falam sobre O Céu É dos Violentos, de Flannery O’Connor, no programa Paraíso Perdido de 2 deFevereiro. Da escritora norte-americana, a Relógio D’Água editou também Tudo O Que Sobe Tem de Convergir, Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Um Diário de Preces.



Paraíso Perdido de 02 Fev 2018 - RTP Play - RTP


14.2.18

Sobre Gertrude Bell, Uma Mulher na Arábia




Lucinda Canelas escreveu no Público sobre Gertrude Bell, de quem a Relógio D’Água editou uma seleção da sua correspondência privada e militar, entradas de diário e escritos de viagem.

«Um dos seus périplos mais importantes pelo deserto, em 1913-1914, entre Bagdad e Damasco, acompanhada apenas por um pequeno grupo de criados fiéis, foi feito com o apoio de Edward Grey, o secretário dos Negócios Estrangeiros inglês. Gertrude, que era fluente em vários idiomas – árabe, alemão, francês, italiano, farsi – e conhecia a região, era a espia ideal. Tinha por missão recolher informação o mais detalhada possível sobre as tribos que controlavam o deserto sírio e sobre a influência crescente dos alemães naquele território.» [Público, 13/8/2016, texto completo aqui. ]

Byung-Chul Han em Barcelona




No passado dia 6 de Fevereiro, Byung Chul-Han participou numa conferência no Centre de Cultura Contemporània de Barcelona. O El País acompanhou a sua intervenção com um artigo publicado no dia seguinte.

«“No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação”, alertou em sua palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), na Espanha, onde o professor formado e radicado na Alemanha falou sobre a expulsão da diferença. E expôs sua particular visão de mundo, construída a partir da tese de que os indivíduos hoje se autoexploram e têm pavor do outro, do diferente. Vivendo, assim, “no deserto, ou no inferno, do igual”.»

De Byung-Chul Han, a Relógio D’Água publicou também A Agonia de Eros, A Sociedade do Cansaço, A Sociedade da Transparência e Psicopolítica, O Aroma do Tempo e A Salvação do Belo, No Enxame e Sobre o Poder.

12.2.18

Sobre Conflito Interno, de Kamila Shamsie




Carlos Vaz Marques falou sobre Conflito Interno, de Kamila Shamsie, no programa Livro do Dia da TSF. O programa pode ser ouvido aqui[5/1/2018]

Sobre Joseph Conrad




«Quando um seus primeiros biógrafos encontrou um capitão que se lembrava de Conrad, numa viagem pelo Oriente em 1887 e 1888, o capitão recordou que “quando descia à cabine para falar com o seu imediato, habitualmente encontrava-o a escrever”.» [Colm Tóibín, em crítica a The Dawn Watch: Joseph Conrad in a Global World, The New York Review of Books, 22/2/2018]

De Joseph Conrad a Relógio D’Água editou «O Agente Secreto», «O Companheiro Secreto», «O Naufrágio do Titanic», «Coração das Trevas, Linha de Sombra e Outras Histórias» e «Lorde Jim».

9.2.18

Nas livrarias: Um Apartamento em Atenas, de Glenway Wescott





Tal como em O Falcão Peregrino (também publicado pela Relógio D’Água e que Susan Sontag descreveu, na The New Yorker, como «um dos tesouros do século XX»), Um Apartamento em Atenas desenvolve-se em torno de três personagens.
Nesta história sobre um casal grego que vive em Atenas ocupada por nazis e obrigado a partilhar a sua casa com um oficial alemão, Wescott encena um perturbador drama de adaptação e rejeição, resistência e compulsão.
Um Apartamento em Atenas retrata os efeitos de uma guerra na vida quotidiana. Trata-se de uma invulgar história de luta espiritual, em que o triunfo e a derrota dificilmente se distinguem.


«Um bom estudo sobre a humilhação e a dignidade, e o seu desenlace em tragédia e numa solução desesperada(…). O carácter moderado, a ausência de exageros e a serenidade são admiráveis como o ideal grego que reflectem e honram. Nesta obra reside a dignidade de um estilo no qual nada é excessivo nem insuficiente.» [Eudora Welty]

8.2.18

Nas livrarias: A Verdadeira Vida de Sebastian Knight, de Vladimir Nabokov




O primeiro romance escrito em inglês por Nabokov — A Verdadeira Vida de Sebastian Knight — foi publicado em Paris, em 1938.
Esta é a história de Sebastian Knight, um escritor famoso cuja vida e morte estão envoltas em mistério.
Depois da morte de Knight, o seu meio-irmão decide investigar-lhe a vida, enfrentando o falso, distorcido e irrelevante. A busca revela-se tão intrigante como qualquer um dos livros do escritor — desconcertante e, afinal, recompensadora. 
A narrativa fala-nos da inserção de um artista numa sociedade hostil ao espírito criativo. Mas A Verdadeira Vida de Sebastian Knight debruça-se também sobre o problema essencial da ambígua identidade humana: quem era afinal Sebastian Knight?

De Vladimir Nabokov a Relógio D’Água publicou também Aulas de Literatura, Ada ou Ardor, Lolita, Convite para Uma Decapitação, Pnin, Riso na Escuridão, Fala, Memória, Fogo Pálido, Rei, Dama, Valete, Opiniões Fortes, Desespero, e O Dom.

Edna O’Brien recebe PEN/Nabokov Award for Achievement in International Literature 2018






Edna O’Brien foi premiada com o Prémio PEN/Nabokov, atribuído anualmente a um autor cuja obra, escrita ou traduzida para inglês, demonstra sólida originalidade e elevada habilidade.
O júri, constituído por Michael Ondaatje e Diana Abu-Jaber, reconhece assim a carreira literária da escritora irlandesa, que receberá o prémio no dia 20 de Fevereiro, numa cerimónia em Nova Iorque.
De Edna O’Brien a Relógio D’Água publicou Raparigas da Província (trad. Margarida Periquito) e Byron e o Amor (trad. Miguel Serras Pereira).

7.2.18

Nas livrarias: A Ilha de Arturo, de Elsa Morante




A Ilha de Arturo é, conjuntamente com La storia, um dos mais importantes romances de Elsa Morante.
Na ilha mediterrânica da Prócida, assistimos à formação de Arturo, que sente uma apaixonada admiração por um pai sempre ocupado em misteriosas viagens. Já adolescente, é atraído pela sua jovem madrasta, Nunziatella. A passagem de um tempo de sonhos e ilusões para a realidade será um caminho lento e difícil para Arturo.
Elsa Morante foi uma mulher que nunca aceitou ter nascido num mundo onde o amor é efémero e a indiferença ou o ódio habituais. «No amor começa por haver o paraíso, mas depois, não se sabe como, precipitamo-nos no inferno», disse numa entrevista que concedeu antes da sua morte em1985.
A miúda selvagem nascida num bairro pobre de Roma, a viajante, a enamorada, a angustiada companheira de Moravia, que sonhava com o sol das ilhas napolitanas e as cores da agreste Prócida («Arturo sou eu», disse ela um dia), percorreu vários continentes, passou em Portugal e viveu as duas últimas guerras mundiais, partilhando a maior parte dos sofrimentos e esperanças do século XX.
As suas personagens recorrentes são crianças, animais e adolescentes cegamente apaixonadas pelo pai, a mãe ou o amor.

6.2.18

Sobre Contos Escolhidos, de Carson McCullers




Reúnem-se aqui doze contos de Carson McCullers numa selecção feita por Ana Teresa Pereira.
Embora seja conhecida pelos seus romances, Carson McCullers foi uma notável contista, inserindo-se na tradição sulista da literatura norte-americana.
Carson McCullers dedicou-se aos contos desde os 17 anos, momento em que escreveu «Sucker», tendo muitos deles começando por aparecer em revistas literárias.
As suas capacidades de observação e o seu estilo revelam uma assumida filiação em autores tão diversos como Flaubert e Dostoievski. Julie Harris considerou-a mesmo «uma mulher encantadora e misteriosa que escrevia como um anjo».
Carson McCullers foi reconhecida pelos grandes escritores da sua época. Graham Greene declarou preferi-la a Faulkner, e Tennessee Williams disse que a sua obra «não se eclipsará com o tempo, mas irradiará cada vez mais fulgor».


De Carson McCullers a Relógio D’Água publicou também “O Coração É Um Caçador Solitário”, “A Balada do Café Triste”, “Relógio sem Ponteiros”, “Reflexos nuns Olhos de Ouro” e “Frankie e o Casamento”.

5.2.18

Sobre Arder a Palavra e Outros Incêndios, de Ana Luísa Amaral




No suplemento E, do Expresso de 3 de Fevereiro de 2018, destaca-se a edição de Arder a Palavra e Outros Incêndios, de Ana Luísa Amaral:


«Além de excelente poeta e tradutora, Ana Luísa Amaral é também professora universitária e uma importante ensaísta, com vasto trabalho no domínio dos estudos feministas e da teoria queer. Neste volume, organizado em “três tempos”, reúne alguma dessa produção, a que junta textos de análise literária sobre Emily Dickinson (autora a que tem dedicado uma atenção extensiva), Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e T. S. Eliot, entre outros.»

Nas livrarias: Os Cães e os Lobos, de Irène Némirovsky




Os Cães e os Lobos, publicado em 1940, tem nítidas relações com a história pessoal de Irène Némirovsky, romancista influenciada pela cultura judaica, francesa e eslava.
Nascida no seio da grande burguesia ucraniana, Irène Némirovsky e a família abandonaram Kiev depois da Revolução de Outubro de 1917, acabando por encontrar refúgio em França.
No centro deste romance está o amor insensato de Ada, uma judia pobre, por Harry, filho de um rico banqueiro judeu. Ada apaixona-se quando é uma criança (viria a tornar-se uma pintora original e revoltada).
Atraídos um pelo outro, nada os reúne excepto o sentimento da sua perda inevitável.
Os Cães e os Lobos é um texto marcado pela melancolia, um romance sobre a infância e a inocência perdida, uma obra-prima indiscutível da literatura do século xx.

De Irène Némirovsky a Relógio D’Água publicou também David Golder, O Baile e O Vinho da Solidão.

No ípsilon, Mário Santos escreveu sobre Mulheres Excelentes, de Barbara Pym (trad. Vasco Gato)





«Mulheres Excelentes é o segundo romance de Barbara Pym (sendo a edição original de 1952). O título — adivinha-se — é irónico e o romance é simultaneamente alegre e triste. Mais alegre do que triste (ou alegre porque triste). Não estivesse o adjectivo tão mal conotado neste nosso mundo ‘globalizado’ e cosmopolita, e eu diria que é um excelente romance paroquial (…)
A acção decorre em Londres, numa paróquia situada “do lado ‘errado’ de Victoria Station”, logo depois da guerra, cujo ascendente é legível de diversos modos e com diversos efeitos: a ala da igreja destruída por uma bomba, a partilha forçada do quarto-de-banho entre vizinhos, os militares que regressam e encontram os fatos comidos pela traça, o racionamento (que durou até 1954, recorde-se), a frugalidade das refeições (“cozi um ovo importado para o almoço”), etc.

No trilho aconchegado de um realismo social e psicológico prosaico, cómico e doméstico — com roupa interior a secar na cozinha, louça por lavar e mobília comida pelo caruncho —, a narração é feita pela protagonista, Mildred Lathbury.» [Mário Santos, Público, ípsilon, 2/2/2018]

2.2.18

A chegar às livrarias: O Santinho, de Georges Simenon (trad. de Catarina F. Almeida)




O Santinho é um marco na obra de Simenon. O livro é um ponto de viragem para o autor, pois é a primeira vez que retrata a vida como algo que se desenvolve serenamente sem ameaças de desintegração.
O pequeno Louis é o filho ilegítimo de uma vendedora ambulante de fruta e legumes que deambula pela Rue Mouffetard, num dos bairros mais sinistros de Paris. É pequeno e delicado, uma exceção num mundo rude e violento. A mãe, a quem Louis é particularmente ligado, apesar de promíscua, é calorosa e enérgica.
Simenon dá-nos a sensação do isolamento da criança de modo discreto. Recriando de forma meticulosa todas as mudanças na vida, moda e conforto que se viviam em Paris antes da Primeira Guerra Mundial, este romance é um elogio aos tempos de Lautrec, Picasso, Braque e Matisse.

“Um dos maiores escritores do século XX.” [The Guardian]

“Adoro ler Simenon. Faz-me lembrar Tchékhov.” [William Faulkner]

“Simenon é autor de várias obras-primas do século XX.” [John Banville]

“O maior e mais genuíno romancista de toda a literatura.” [André Gide]


“Um escritor maravilhoso… Lúcido, simples, em perfeita sintonia com o que escreve.” [Muriel Spark]

A chegar às livrarias: Prefácios, de Søren Kierkegaard (trad. de Susana Janic)





«Os oito prefácios diferem entre si na estrutura, na extensão e no enfoque com que abordam a temática dos livros fictícios e os respectivos autores cuja apresentação pública encenam. Uma coisa, todavia, mantém­‑se constante: o grau de corrosão com que neles se desenha a sátira dos usos e costumes do mundo leitor e dos arautos da cultura de Copenhaga, com incidência maior ou menor na contaminação entre a importância comercial, o valor cultural de obras e de autores, a relação interesseira entre a Filosofia e a Teologia contemporâneas e a estipulação do gosto do público.» [Da Introdução de Elisabete M. de Sousa]

1.2.18

Jaime Rocha e Ana Teresa Pereira finalistas do Prémio Correntes d’Escritas




O Prémio Correntes d’Escritas, atribuído no festival literário que decorre na Póvoa de Varzim, será este ano atribuído a uma obra de ficção.
Entre as 14 obras finalistas, estão os livros Escola de Náufragos, de Jaime Rocha, e Karen, de Ana Teresa Pereira, ambos publicados pela Relógio D’Água.


O júri é constituído por Fernando Pinto do Amaral, José Mário Silva, Maria de Lurdes Sampaio, Teresa Martins Marques e Javier Rioyo.

O vencedor será anunciado no dia inaugural do festival, 21 de Fevereiro.

Sobre Fanny Owen, de Agustina Bessa-Luís




No âmbito da iniciativa Ano Agustina, em que, mensalmente, ao longo de 2018, a Comunidade Cultura e Arte publicará uma crítica a um dos livros de Agustina Bessa-Luís, do catálogo reeditado pela Relógio d’Água.
No dia 28 de Janeiro foi publicada a crítica de Miguel Fernandes Duarte a «Fanny Owen»:
«No Porto do séc. XIX, dois amigos boémios apaixonam-se pela mesma jovem mulher, sendo que um deles, intimado pela mesma, a rapta para com ela se casar por procuração. As expectativas face à relação saem, no entanto, goradas, e, no espaço de um ano, ela morre, enferma, de desgosto, vítima de tuberculose; um mês depois morre ele, em Lisboa. A jovem mulher era Fanny Owen, filha do coronel Hugh Owen, inglês combatente na guerra peninsular, fixado em Portugal após casamento com D. Maria Rita, filha de um abastado comerciante de vinho do Porto e educada “na corte de Carlota Joaquina, o que não era garantia nenhuma de educação.” Os dois amigos José Augusto de Magalhães – o raptor de Fanny -, morgado e medíocre poeta, e o outro Camilo Castelo Branco, o tal que se tornou um dos maiores escritores da língua portuguesa.
Partindo desta história verídica, Agustina Bessa-Luís escreve em 1979 o romance histórico Fanny Owen, após, segundo a própria, Manoel de Oliveira lhe ter pedido para escrever os diálogos de um filme que ele quereria fazer sobre Fanny Owen, e que veio a ser Francisca, de 1981. Oliveira desmente em posterior entrevista que tenha sido ele a pedir algo a Agustina, afirmando, como indica Hélia Correia no prefácio à mais recente edição do livro pela Relógio d’Água, que “não houve nenhuma combinação prévia. Li o livro e fiquei encantado porque a ideia de fazer Fanny Owen já a trazia comigo há muito tempo.” Quer se concorde em qual das versões está a verdade ou não, é um facto que a história deste dramático triângulo amoroso, que Agustina decide contar, marca também a primeira colaboração entre a escritora e o realizador Manoel de Oliveira.
Fanny Owen é relato dos acontecimentos, de como evolui a relação entre as três personagens, de como se processa a relação amorosa que culmina na morte do casal, mas é, muito mais que narrativa, análise das motivações das personagens, retrato racional de situação fogosa, com o distanciamento que permite a Agustina não cair nos exageros dramáticos das personagens. […]»

Benjamin Moser no Festival Literário da Madeira





A Relógio D’Água acaba de publicar Porquê Este Mundo, a biografia que Benjamin Moser escreveu sobre Clarice Lispector.
O autor estará presente no FLM, que decorre de 13 a 17 de Março, no Teatro Municipal Baltazar Dias, no Funchal. O tema do festival em 2018 é “Literatura e Jornalismo, a palavra que prende e a palavra que liberta”. Mais informações sobre o FLM em: http://www.festivalliterariodamadeira.pt/pt .


Benjamin Moser nasceu em Houston em 1976. Estudou nas faculdades de Brown (EUA) e Utrecht (Países Baixos), onde recebeu o doutoramento. O seu primeiro livro, Porquê este mundo: uma biografia de Clarice Lispector, recebeu vários prémios e nomeações, foi editado e traduzido pelo mundo inteiro, e abriu o caminho para a redescoberta internacional da obra da escritora brasileira, de quem é editor da nova tradução completa para o inglês. É colunista do The New York Times, fala oito idiomas, e em 2016 publicou Autoimperialismo: Três ensaios sobre o Brasil. Está a terminar a biografia autorizada de Susan Sontag. Vive entre a França e a Holanda.