20.7.17

A chegar às livrarias: Retalhos do Tempo — Um Memorial de Dublin, de John Banville, com fotografias de Paul Joyce (trad. de Paulo Faria)






Para o jovem Banville, Dublin era um lugar repleto de encantamento e saudade. Todos os anos, pela altura do seu aniversário, ele e a mãe viajavam de comboio até à capital da Irlanda, atravessando os campos cor-de-rosa gelados ao amanhecer, iniciando um dia de aventuras entre as quais se incluíam as viagens ao Clery’s e à geladaria Palm Beach.
O então aspirante a escritor foi viver para Dublin aos dezoito anos. Era um período desanimador, quer para a sociedade irlandesa quer para ele. Foi essa fase que o escritor explorou mais tarde através de Quirke, um protagonista a que deu vida através do pseudónimo Benjamin Black. Mas sob uma superfície aparentemente calma, aproximava-se uma tempestade. A Irlanda estava prestes a conhecer uma profunda mudança.
Alternando entre memórias do passado e explorações históricas recentes que fez pela cidade, Retalhos do Tempo é uma evocação intensa da infância e da memória, daquele “abismo repleto de luz” onde “a alquimia do tempo opera”, uma ode a um tempo e a um local de formação para o artista quando jovem.
O livro é ilustrado por imagens da cidade do fotógrafo Paul Joyce.

19.7.17

Jane Austen duzentos anos depois





A romancista inglesa Jane Austen morreu a 18 de Julho de 1817, mas as sucessivas reedições das suas obras e as adaptações cinematográficas e televisivas confirmam a sua actualidade.
A consistência dos seus enredos, a intensa vida íntima das suas personagens, particularmente das femininas, a sua ligação com a sociedade da época, o humor e inovações narrativas justificam um tão singular destino.
Uma das constantes das suas obras é o alvoroço causado nas famílias com filhas em idade de casamento pela instalação nas proximidades de algum proprietário ainda solteiro.
Mas as suas personagens não se modificam, apenas se vão conhecendo melhor ao enfrentarem os obstáculos da vida.
Com A Abadia de Northanger rompeu com a literatura gótica do seu tempo e com Lady Susan abandonou o sentimentalismo de Samuel Richardson (autor do romance epistolar Clarissa).
A sua persistente actualidade foi apenas partilhada por escritoras que não por acaso nasceram pouco depois da sua morte, como Emily Brontë e George Eliot (e por escritores como Charles Dickens ou Henry James).



De Jane Austen, a Relógio D’Água publicou Sensibilidade e Bom Senso, Mansfield Park, Orgulho e Preconceito, Lady Susan, Persuasão, A Abadia de Northanger e Emma.

«O que poderia ter sido então mais natural, ante este vislumbre da sua profundidade, do que Jane Austen decidir escrever sobre as trivialidades da vida quotidiana, as festas, os piqueniques e os bailes na província? Nenhumas sugestões vindas do príncipe regente ou de Mr. Clarke para «alterar o seu estilo de escrita» a poderiam tentar; nenhum romance, nenhuma aventura, política ou intriga poderiam fazê-la ver a vida de maneira diferente. Na verdade, o príncipe regente e o seu bibliotecário tinham vindo chocar contra um obstáculo formidável ao tentarem interferir com uma consciência incorruptível, com uma infalível sagacidade. A criança que compunha tão magnificamente as suas frases aos quinze anos nunca deixou de as compor e nunca escreveu para o príncipe regente ou para o seu bibliotecário, mas para o mundo em geral. Ela conhecia exactamente as suas capacidades e sabia que material estavam habilitadas a tratar como ele deve ser tratado por uma escritora que se impõe níveis de qualidade muito elevados. Havia impressões que extrapolavam a sua área de competência; emoções que sem esforço nem artifício podiam ser adequadamente trabalhadas com os seus próprios recursos. Por exemplo, ela não podia pôr uma rapariga a falar entusiasticamente de bandeiras e capelas. Não podia lançar-se de alma e coração num momento romântico. Usava todo o tipo de recursos para evitar cenas de paixão. Abordava a natureza e as suas belezas de uma forma oblíqua, muito sua. Descreve uma bela noite, mas sem mencionar a lua. Não obstante, ao lermos as suas poucas frases formais sobre «a luminosidade de uma noite sem nuvens e o contraste com as sombras cerradas do bosque», a noite torna-se imediatamente tão «solene, calmante e encantadora» como ela, com toda a simplicidade, nos diz que era.
O equilíbrio entre os seus dons era singularmente perfeito. Entre os romances que terminou não há fracassos, e entre os seus muitos capítulos poucos são os que ficam notoriamente aquém dos restantes. Mas, afinal, ela morreu com quarenta e um anos, no auge das suas capacidades, numa idade em que ainda estava sujeita àquelas mudanças que tantas vezes fazem do final da carreira de um escritor o seu período mais interessante. Viva, irreprimível, dotada de grande vitalidade criativa, não restam dúvidas de que, se tivesse vivido mais tempo, teria continuado a escrever, e é irresistível pensar se teria escrito de maneira diferente.» [Virginia Woolf]

18.7.17

Sobre David Vann







«O Alasca é isolado e põe à prova quem se aproxima. Muitos descrevem a religiosidade da natureza dura e inóspita, uma nova fronteira só para os mais corajosos quando a conquista do Oeste já tinha chegado ao Pacífico. Mas para muitos o maior Estado do país, onde vive apenas um milhão de pessoas, oprime e transforma quem quer sair. Em A Ilha de Sukkwan, Roy, um miúdo, aceita o convite do pai para viverem um ano numa cabana isolada numa ilha do Alasca. Só eles e a natureza — a base da história norte-americana, defendem muitos.» [Catarina Moura, a propósito de crítica ao livro Viagem do Sonho Americano, de Isabel Lucas, na Time Out Lisboa de 28/6/17]

Sobre Cormac McCarthy





«Em El Paso, junto à fronteira com o México, os cowboys deixaram-se substituir pelos militares — uma imagem e uma boa metáfora para a actualização do mito do herói americano e da fronteira. É aí que Cormac McCarthy situa a sua Trilogia da Fronteira (Belos Cavalos, A Travessia e Cidades da Planície). Como em outras obras suas, as pessoas são duras porque a natureza é dura. São três livros da verdadeira literatura de fronteira em que o limite geográfico traz outros: a linha entre o bem e o mal, as contradições num indivíduo.» [Catarina Moura, a propósito de crítica ao livro Viagem do Sonho Americano, de Isabel Lucas, na Time Out Lisboa de 28/6/17]

17.7.17

A chegar às livrarias: Momentos Decisivos da Humanidade, de Stefan Zweig (trad. de Maria Henriques Osswald)





Este livro reúne alguns momentos decisivos da humanidade. São aqueles em que, nas palavras do próprio Zweig, «o drama reveste formas inauditas, imensas».
Recorrendo a documentos históricos e preenchendo as lacunas com a imaginação, Zweig fala-nos do «Minuto Mundial de Waterloo», a 18 de junho de 1815, da «Elegia de Marienbad», que recorda Goethe a 5 de setembro de 1823, da luta do capitão Scott pela chegada ao Polo Sul, da «Conquista de Bizâncio», da Ressurreição de Händel, da «Primeira Palavra Que Atravessou o Oceano» e do que se passou em torno da perseguição e morte de Cícero.

De Stefan Zweig a Relógio D’Água publicou também Amok, Carta de Uma Desconhecida, Segredo Ardente, Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher e O Mendel dosLivros e A Viagem ao Passado.

A propósito de Paterson, de Jim Jarmusch





«O novo filme realizado por Jim Jarmusch, Paterson, pode muito bem ser o melhor de sempre sobre poetas, poesia e condutores de autocarros casados com iranianas que querem ser cantoras de country & western. (…)
Paterson escreve poemas curtos, límpidos e simples, remetendo directamente para a poesia imagista (são da autoria de um poeta verdadeiro, Ron Padgett, e três deles foram escritos directamente para o filme). Não é por acaso que William Carlos Williams, um dos expoentes desta escola, é um dos favoritos de Paterson e da mulher (que lhe chama Carlo Williams Carlos), e o autor de um longuíssimo poema intitulado… Paterson, adivinharam, escrito quando o poeta e médico pediatra exercia clínica no hospital da vizinha cidade de Passaic. Até há uma sequência onde Paterson encontra um turista japonês fã de William Carlos Williams junto a uma catarata referida por este no poema.» [Eurico de Barros, Time Out Lisboa, 28/6/17]

13.7.17

A chegar às livrarias: A Sibila, de Agustina Bessa-Luís, com prefácio de Gonçalo M. Tavares





Surgido em 1954, o romance A Sibila confirmou Agustina Bessa-Luís como uma voz inovadora, em ruptura com as correntes literárias então predominantes.
As suas personagens não se resumiam a estereótipos sociais, impelidas como eram pela caótica energia dos seres humanos.
O romance venceu em 1953 um concurso organizado pela editora Guimarães, com um júri formado por Vitorino Nemésio, Branquinho da Fonseca, Álvaro Lins e Tomás de Figueiredo. No ano seguinte receberia o Prémio Eça de Queiroz.
Eduardo Lourenço foi um dos que melhor entenderam o alcance da obra, escrevendo na revista Colóquio de Dezembro de 1963: «Foi há dez anos que o milagre, já anteriormente preparado, teve lugar na praça pública. Não há assim tantos que um verdadeiro não mereça ser glorificado como convém. O que Sibila e a sua descendência significam não precisa de ser sublinhado por contraste. Mas este mundo romanesco, pelo seu simples aparecimento, deslocou o centro da atenção literária.»