23.3.17

Sobre A Balada do Café Triste, de Carson McCullers




«No momento em que se assinalam cem anos sobre o nascimento de Carson McCullers (e 50 sobre a sua morte), a Relógio D’Água decidiu em boa hora editar ou reeditar todos os livros da escritora, uma das mais importantes do chamado Southern Gothic.“A Balada do Café Triste”, de 1951, é um bom exemplo do seu génio e da sua desesperada melancolia. (…) A construção narrativa é perfeita; a prosa, de um vigor e brilho raros. Notável, a atenção aos pormenores, o corcunda, por exemplo, tem mãos “como patitas sujas de pardal”. No fim, em jeito de coda, espreitamos um grupo de doze homens, prisioneiros que tapam buracos numa estrada. Cantam juntos e o seu canto parece brotar da própria terra ou cair do céu. “É uma música que dilata o coração de quem a ouve e provoca estremecimentos gelados de medo e êxtase.” Tal e qual a escrita desolada, belíssima, de McCullers.» [José Mário Silva, Expresso, E, 18-3-2017]

Autores de língua portuguesa na Feira de Leipzig





A Feira de Leipzig é, paralelamente à Feira do Livro de Frankfurt, uma das mais importantes feiras do livro do mundo, com uma componente mais vincada de abertura ao público sem o foco exclusivo na componente negócio. Paralelamente à Feira decorre o evento Leipzig Lê, onde se realizam cerca de 3000 leituras em espaços diversos daquela cidade.
Nas palavras de Hélia Correia que o ano passado integrou a delegação de autores que ali se deslocaram: “É uma Festa do Autor”.
Portugal terá um stand na Feira, que se realiza de 23 a 26 de Março.
Os autores convidados deste ano são Patrícia Portela, Mia Couto, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Kalaf Epalanga, Margarida Vale de Gato, Raquel Nobre Guerra e Miguel Cardoso.

22.3.17

Entrevista a Marlon James, autor de Breve História de Sete Assassinatos




«Mas lá diz o ditado: à terceira é de vez. E foi. Depois de duas marcações falhadas, James sentou-se no seu escritório em St. Paul, no Minnesota, onde vive desde 2007, para falar de Breve História de Sete Assassinatos, o romance que lhe valeu o Man Booker Prize em 2015, e da Jamaica do tempo de Marley . A Jamaica do seu tempo, onde havia violência nas ruas, é certo, mas não uma violência generalizada. Porque havia mais no seu país do que os guetos onde jamaicanos se iam matando uns aos outros.

Quando se fala em Breve História de Sete Assassinatos, considerado por muitos como um dos melhores romances dos últimos anos, que gira em torno da tentativa de assassinato a Bob Marley em dezembro de 1976, o tema da violência desmedida é difícil de ignorar (logo no primeiro capítulo, o leitor vê-se obrigado a engolir a seco e preparar-se para o que aí vem). Mas James, de 46 anos, fala dessa violência com naturalidade. Porque é que haveria de censurar os tiros, as mortes, a pobreza? A vida nos guetos da capital jamaicana, Kingston? Sentado numa cadeira, com um poster de Joy Division como pano de fundo, admite que não havia como fugir à questão. Afinal, as coisas são como elas são. E o livro dele é como é.» [Rita Cipriano entrevista Marlon James, a propósito da edição de Breve História de Sete Assassinatos, no Observador. Texto completo disponível aqui.]

21.3.17

Sobre A Associação das Pequenas Bombas, de Karan Mahajan







«Mahajan procura romper com algum cânone de escritores como Vikram Seth ou Rohinton Mistry, autores de sagas familiares que Dickens poderia ter escrito, para se concentrar nesta ideia do pequeno estilhaço que se associa em constelação. Pela originalidade de nos dar uma perspetiva interna de um drama que nos chega amassado pelas cadeias de informação global, este segundo romance de Mahajan merece ser louvado e tido em conta.» [Rui Lagartinho, Expresso, E, 18-3-2017]

A chegar às livrarias: Poemas Escolhidos, de Yorgos Seferis (trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)








«XXIII

Um pouco mais

e veremos florescer as amendoeiras os mármores brilharem ao sol

o mar a ondear

um pouco mais,

para nos levantarmos um pouco mais alto.»


Yorgos Seferis — pseudónimo de Yorgos Stylianos Seferiadis — nasceu em Esmirna, em fevereiro de 1900.
Aos 14 anos partiu para Atenas e depois para Paris, onde frequentou as faculdades de Letras e Direito.
Em 1922 a casa da sua infância foi saqueada pelos turcos, sendo os gregos da Anatólia forçados a abandonar a região que tinham habitado durante dois mil anos.
Em 1925 regressou à capital grega, onde se tornou diplomata. Em 1942 a ocupação alemã levou-o ao exílio. Terminada a guerra, desempenhou cargos diplomáticos em diversos países, nomeadamente em Inglaterra, onde viveu de 1957 a 1962. No ano seguinte foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Literatura.
Yorgos Seferis morreu em Atenas, a 20 de setembro de 1971, deixando uma obra que renovou a moderna poesia grega.

Sobre Yu Hua e literatura chinesa contemporânea







«Com a publicação do livro de 1996, um dos autores contemporâneos chineses mais influentes chega este mês a Portugal, pela Relógio d’Água, traduzido do original chinês por Tiago Nabais. É o primeiro dos três de Yu Hua que a editora vai publicar: o romance Viver (traduzido por Márcia Schmaltz) e o conjunto de ensaios A China em Dez Palavras (tradução de Tiago Nabais). Se a publicação de literatura chinesa é rara, mais ainda é a sua tradução do original chinês, o que está ser negociado pela Relógio D’Água para lançar outros escritores.
“A expectativa de uma literatura ‘exótica’, cheia de kung fu, yin yang e incenso não se realiza e desilude leitores e editores”, escreve-nos da China, por email, Tiago Nabais, apontando esta como uma possível razão para a distância dos leitores europeus face aos escritores chineses de hoje. O regime político pode ser outra barreira e quando o jornalismo está estrangulado, está na ficção o retrato mais livre da realidade. “O fantástico e o absurdo podem constituir formas úteis para abordar certos fenómenos da sociedade chinesa contemporânea: evacuar um milhão de pessoas para construir uma barragem, vilas que se transformam em megacidades em poucos anos ou o aparecimento de quinze mil porcos a flutuar no rio em Xangai”, aponta o tradutor, acrescentando que temas como a corrupção, as condições de trabalho, os problemas ambientais e a saúde pública preocupa autores como Yan Lianke, Jia Pingwa ou Ge Fei.
Crónica de Um Vendedor de Sangue é uma janela para a mentalidade actual da China rural, perto de Xangai.» [Catarina Moura, Time Out, 15/3/17]

20.3.17

A chegar às livrarias: O Duplo, de Fiódor Dostoievski (trad. de António Pescada)








«O desconhecido estava sentado à sua frente, também de sobretudo e chapéu, na sua cama, sorria ligeiramente, e, franzindo um pouco os olhos, acenou-lhe amigavelmente com a cabeça. O senhor Goliádkin queria gritar, mas não pôde — protestar de alguma maneira, mas não lhe chegavam as forças. Tinha os cabelos em pé e sentou-se no seu lugar, insensível de horror. E de resto havia razão para isso. O senhor Goliádkin reconheceu completamente o seu amigo noturno. O seu amigo noturno não era outro senão ele próprio — o próprio senhor Goliádkin, outro senhor Goliádkin, mas exatamente como ele — numa palavra, aquilo a que se chama o seu duplo em todos os aspetos…»

O Duplo foi publicado em 1846, quando Dostoievski contava apenas 24 anos.
O tema do duplo foi depois muitas vezes abordado na literatura, mas a narrativa de Dostoievski estabelece uma rutura com as convenções literárias até então vigentes.
Goliádkin é o símbolo da revolta do homem contra as instituições sociais, mas também contra si próprio.

PVP: €10,00