21.9.17

Obra de Agustina Bessa-Luís na Cinemateca





A Cinemateca Portuguesa dedica a rubrica História Permanente do Cinema Português à relação da escritora Agustina Bessa-Luís com o cinema.
Com a exibição de dois filmes que adaptam a obra da escritora – Francisca, de Manoel de Oliveira, e A Corte do Norte, de João Botelho —, no dia seguinte ao do seu aniversário, 16 de Outubro, a Cinemateca associa-se à editora Relógio D’Água e às iniciativas promovidas em torno da comemoração dos 95 anos de Agustina, a propósito do relançamento de toda a obra da autora. Iniciativas que incluem ainda a preparação de uma biografia da escritora, leituras e debates na Livraria Lello, uma exposição de fotografias sobre o seu Douro e a reposição em Novembro pelo Teatro Aberto da peça Três Mulheres com Máscara de Ferro.

[Na imagem, cena de Francisca, a partir do romance Fanny Owen]

Sobre O Duplo, de Fiódor Dostoievski




«Se é verdade óbvia que Dostoievski viria a refinar processos, eliminar rudezas e colmatar lacunas composicionais, certo é que mesmo um livro de juventude como O Duplo antecipa muitos dos abismos humanos, dos remoinhos da psique que hão-de assombrar as mais consumadas realizações do escritor.
(…)
Os perseguidos e torturados, esses seres convulsos das obras tardias, têm um antepassado distante em Goliádkin. Acossado por uma duplicação de si, demasiado real para ser alucinatória, demasiado inverosímil para ser fruto do acaso, o conselheiro titular já alimenta no seu íntimo a convulsão das vidas descritas pelas obras-primas da fase final da obra do autor.» [Hugo Pinto Santos, revista Caliban, 2/9/17, texto completo em https://revistacaliban.net/a-figura-espelhada-6c91afcab88e ]

20.9.17

Sobre As Pessoas do Drama, de H. G. Cancela




«Há, a meu ver, dois clássicos com que as As Pessoas do Drama dialoga sem que se apresente como releitura de nenhum. De alguma forma, é difícil ler o romance de H. G. Cancela sem pensar no outro romance sobre incesto da literatura portuguesa, Os Maias de Eça de Queirós. Por outro lado, há uma encenação da Antígona que se repete durante um longo período de tempo numa das partes centrais do romance e o elo com a tragédia de Sófocles é relevante (mas talvez não exactamente vital) para ler o romance. Se falamos de ecos da tradição, há ainda o facto de uma parte da acção se passar em Roma, e isto abre espaço para uma das reflexões mais interessantes que o romance propõe, acerca da natureza da ideia de herança cultural. A noção de herança cultural corre em paralelo com outra, mais oblíqua, a da hereditariedade dos traços e comportamentos que os filhos podem herdar dos pais.
A primeira parte do romance abre com uma longa sequência sobre um homem, o narrador (nunca nomeado), que evita abertamente quase todo o tipo de contacto social e constrói uma vedação em torno da sua propriedade. Pode haver aqui – ou não – um jogo com o mito do beau sauvage. Através das preocupações filosóficas que o estruturam, podíamos dizer que H. G. Cancela é um romancista que pertence à tradição de Vergílio Ferreira. Mas As Pessoas do Drama estilhaça toda e qualquer expectativa de uma re-encenação pacífica de referências culturais que pudessem estruturar as expectativas do leitor.» [Tatiana Faia, Enfermaria 6, texto completo aqui ]

De H. G. Cancela, a Relógio D’Água publicou também Impunidade.

Hélia Correia inspira Paula Rego




Vai acontecer em breve a maior exposição de novas obras de Paula Rego numa galeria pública do Reino Unido.
A exposição, intitulada The Boy Who Loved the Sea and Other Stories, inaugura no dia 21 de Outubro, na Jerwood Gallery, e apresenta quadros, desenhos e esculturas de Paula Rego, inspirados num texto de Hélia Correia, Bastardia.
As obras, novas e algumas nunca expostas, poderão ser visitadas até 7 de Janeiro de 2018.
Mais informações em http://www.jerwoodgallery.org/…/the-boy-who-loved-the-sea-a…
[fotografia de Nick Willing]

Sobre Retalhos do Tempo, de John Banville




«Infelizmente tenho de me repetir: cada novo livro seu coloca o leitor no patamar do virtuosismo. Acabado de traduzir, não se esgota na categoria de livro de viagens, como aquele que em 2003 dedicou a Praga. Este volume de memórias de Dublin é um longo e fascinante ensaio ilustrado com fotografias de Paul Joyce. Sabíamos que Banville é sempre exemplar na forma como recorta as personagens, ficcionais ou reais (exemplos ao acaso: Newton e Anthony Blunt), mas, doravante, sabemos que estamos mesmo nos lugares que evoca. Desde Luz Antiga (2012), o admirável romance sobre a erosão do tempo que, num hábil jogo de mnemónica, mete Paul de Man na intriga, não me recordo de páginas tão certeiras como estas em que revisita a Dublin dos anos 1950, uma cidade flagelada «pela pobreza, um lugar cinzento e feio» que, mesmo assim, «não maculava os sonhos» do rapazito que o autor então era. Banville nasceu em Wexford e, como o próprio recorda, Dublin era para ele «o que Moscovo era para a Irina em Três Irmãs, de Tchékhov, um lugar mágico…» Apesar da aventura que a viagem representava (ia lá no dia de aniversário, coincidente com um feriado católico), as anotações são o exacto contrário da primeira vez que viu Paris, aos dezoito anos: passeando no Jardim do Luxemburgo, sentiu «que penetrara numa tela de Renoir ou de Raoul Dufy, ou até numa das fêtes galantes de Watteau.» As evocações têm enfoque em locais e pessoas concretas, como ruas, jardins (muitos), bibliotecas, lojas, bares, edifícios, monumentos e, sem surpresa, Yeats. Não são bilhetes postais. Banville envolve tudo num fio condutor, onde História, experiências pessoais, envios literários, tradição e anedotário compõem um quadro vivo. A história de Phoenix Park dá azo a um impressivo retrato de James Butler (1610-1688), 1.º duque de Ormonde e criador daquele que é o maior parque público da Irlanda. Não falta sequer o furto do volume da poesia completa de Dylan Thomas: «enfiei-o debaixo do casaco e saí à socapa, com as mãos a tremer…» Em suma, leitura obrigatória.» [Eduardo Pitta, no blogue Da Literatura, a propósito de crítica publicada na revista Sábado, 31/8/17]

19.9.17

Sobre No Inverno, de Karl Ove Knausgård




«(…) Knausgård parece querer mostrar à filha o que pode esperar do mundo, da complexidade da natureza, das pessoas e dos seus sentimentos, porque todos “estamos entregues uns aos outros” e é preciso aprender a lidar com isso. “É estranho que existas, mas que não saibas nada de como é o mundo. É estranho que haja uma primeira vez que se vê o céu, uma primeira vez que se vê o Sol, uma primeira vez que se sente o ar na pele. É estranho que haja uma primeira vez que se vê um rosto, uma árvore, um candeeiro, um pijama, um sapato. Na minha vida isso já quase não sucede. Mas em breve voltará a acontecer. Daqui a apenas uns meses vou ver-te pela primeira vez.» 
Cada um dos textos obedece a uma mesma estrutura: o autor começa por descrever (por vezes com uma precisão quase infantil, ou como se o fizesse para um ser alienígena) o objecto ou a ideia que titula a pequena narrativa; depois tece mais umas quantas considerações, e passadas umas linhas relaciona-o com um sentimento, uma memória da sua vida (por vezes da sua infância), uma situação social, e fá-lo quase sempre com aquela singular intensidade que o caracteriza desde os seis volumes de A Minha Luta. (…)
A escrita de Karl Ove Knausgård transforma o tempo em palavras, como se com a sua subtileza de narrar, de poder introspectivo e visceral, se libertasse de incomodidades obscuras (…).» [José Riço Direitinho, Público, ípsilon, 15-9-17]

18.9.17

Na morte de John Ashbery





O poeta norte-americano John Ashbery (1927-2017), um dos maiores do nosso tempo, faleceu no passado dia 3 de Setembro.
Sobre ele, Pedro Mexia escreveu na revista E de 16 de Setembro:


«John Ashbery foi duas vezes traduzido em Portugal. Em 1991, no contexto dos encontros Poetas em Mateus, uma dezena de poetas-tradutores (entre os quais Joaquim Manuel Magalhães e Pedro Tamen) produziram uma pequena antologia, “Uma Onda e outros poemas” (Quetzal), editada no ano seguinte, com revisão e apresentação de João Barrento. Em 1995, saiu “Auto-retrato num Espelho Convexo e outros poemas” (Relógio D'Água), um volume mais expansivo, com tradução e posfácio de António M. Feijó. É interessante recordar as qualificações e precauções que os tradutores entenderam necessárias, e que de facto são, acentuando a dimensão estranha, bizarra, hermética. Barrento destaca na poesia de Ashbery o “descentramento, a deriva do sentido, a suspensão da significação ou a insistência no aparentemente insignificante (...), do acidental e do contingente (…)”, enquanto Feijó escreve que em muitos destes poemas encontramos “uma sistemática disjunção que ilude qualquer coerência ou coesão semântica”. Embora frequentemente autobiográfico, Ashbery não é um poeta “confessional”, e a sua poesia tem qualquer coisa de refutação das ingenuidades confessionais. Em vez de “poesia da experiência”, é uma poesia da “experiência da experiência”, um vaivém tumultuoso da consciência e da memória, meio Proust, meio inventário caótico. Esses “devaneios”, como lhes chama Feijó, tornaram-se cada vez mais absurdos no Ashbery das últimas, e abundantes, décadas, deslumbrado com o incessante fluxo de informações imagéticas e linguísticas a que estamos sujeitos. Porque um poema de Ashbery é “hermético” na medida em que é a apoteose de um “eu” ultraconsciente, hiperamnésico, e talvez intransmissível; ao mesmo tempo, é justamente a absoluta singularidade desse “eu” que faz com que sejamos convocados para essa espécie de linguagem privada, que na nossa cabeça completamos, associamos, interrogamos, tomamos como nossa. A poesia de Ashbery pode fazer sentido na medida em que é um “modo de vida”, tão misterioso e fascinante como o nosso modo de vida, e por isso de algum modo semelhante ao nosso. Um poema da colectânea “The Double Dream of Spring” (1970), que cito na tradução de António Feijó, diz isto, que parece agora ainda mais elegíaco, ainda mais confiante: “Somos felizes no nosso modo de vida. / Não faz muito sentido para os outros. Sentamo-nos para aqui,/ Lemos, e andamos irrequietos. Por vezes é altura/ de baixar a escura persiana sobre tudo isto. / A entidade que somos revolve num transe auto-induzido/ Como o sono. Sem ruído o nosso viver pára/ E entra-se como que num sonho / Nesses domínios respeitáveis onde a vida é imóvel e viva (…)”.»